sábado, 8 de novembro de 2008

Sarajevo (em mim)

*Foto: O que restou da Biblioteca Nacional de Sarajevo após os conflitos étnicos nos Balcãs.


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Aquela noite não consegui dormir. Rolava na cama de um lado para o outro e minha cabeça não parava de pensar... de pensar em 1 zilhão de coisas ao mesmo tempo e mesmo assim pensar em nada... no vazio. Finalmente, lá pelas tantas da madrugada, acabei dormindo e sonhei que estava em Sarajevo. Sim, ainda na época dos conflitos sanguinários que culminaram com a extinção da antiga Iugoslávia.
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Era como se eu estivesse esperando por um ônibus, num local de fronteira religiosa como tinham tantas naquela região... Algumas outras pessoas estavam por ali também, à espera.
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Ninguém falava nada, o silêncio era aterrorizante, uma leve brisa silenciosa tocava em meu rosto e uma nervosa apreensão pairava no ar. Todos estavam com expressões tensas em seus rostos. Tristes, eu diria. Era como se a pessoa ao seu lado pudesse ser um inimigo mortal e mesmo assim todos apavorados e letárgicos.
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Acordei assustado... e voltei a dormir novamente. O sonho continuava. Encontrava-me agora em uma casa sombria, como um mosteiro. Tudo estava em silêncio, quando de repente, uma sirene dispara e poucos segundos depois, começam a explodir bombas em toda parte. Estávamos sendo bombardeados. Havia padres na casa, que surgiam não sei de onde, e que corriam para se proteger. Vestiam batinas pretas, botinas velhas e surradas, eram jovens e bonitos...
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Tentei correr para me abrigar também, mas sentia-me paralisado. Era como se estivesse ali, no meio daquela confusão apenas como observador. Apesar do pavor e da destruição a minha volta, era como se existisse uma certeza, intrínseca, de que eu não iria me ferir.
Mas o medo era real, ele existia em mim, naquele momento de pânico. De repente, apenas há poucos metros de onde eu estava, uma bomba explode, bem ao lado de um jovem padre que tentava se proteger. Voam pedaços do corpo do jovem padre e da casa para todos os lados e um enorme buraco abre-se no teto. Sinto meu corpo sendo atingido por fragmentos de tijolos, carne humana e sangue...
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Olho para cima e vejo um céu estrelado como talvez nunca tivesse visto... Uma linda noite estrelada de inverno... Dava para ver ainda um avião passando alto, com seu rastro, voando suavemente muito alto sobre a casa e... acordo.
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Não conseguia mais dormir.
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3:20 da manhã.
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Visto minhas calças, uma camiseta e meu velho tênis.
Pego carteira, chaves, celular e meu maço de cigarros e saio para caminhar pela Avenida Paulista, pensando...
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Que guerra é essa que estou travando dentro de mim?

16 comentários:

tossan disse...

Estou deixando de fumar e tenho estes pesadelos também!

Por que nós sonhamos com isso?
Porque isto existe. Malditas guerras!

Abraço

Luiz Gonzaga disse...

Será que Freud explica?
Eu não fumo, e às vezes também tenho esses sonhos; é a melhor hora para escrever.Abç.

Adriano Queiroz disse...

Acho também sonhos podem revelar nossas guerras particulares.
Não gosto de ter pesadelos, mas gosto de saber que eu posso tê-los.
O bom do pesadelo é a surpresa.

Abraços.

Vâmvú disse...

Tossan, sinceramente? Não sei te responder... essas malditas guerras mesmo, (externas ou internas...). Obrigado pelo coment, sempre bem vindo. Abração.

Luiz, é, talvez só Freud explique.. (rs). Fumo, mas não estou parando, e mesmo assim, de vez em quando, tenho pesadelos...
Obrigado pela visita, vc escreve muito bem, ainda estou abismado (no bom sentido) com teus textos. Abração.

Adriano, concordo plenamente com vc, nos sonhos nos revelamos sim, revelamos (em nossos pesadelos) nossas guerras internas. Obrigado pelo coment, sempre. Abração.

Corso disse...

se fosse freud, diria exatamente o que freud diria...e nem uma palavra a mais...rs

c tá parando de fumar? eu tentei umas 200 vezes, com todos os métodos, exceto com vontade...

do texto...renovação, libertação...condizente...abrir o teto é uma imagem interessantíssima...e o padre morrer junto...

txs pelo comment...sempre fico desconfiado daquilo que sai na hora, e esse aí foi um deles...

no mais, tudo tranquilo por aí, no avesso do avesso do avesso do avesso, espero...

abrasssssssssssss

MaxReinert disse...

Não seiiiiiiiiiii... mas deve ser um aguerra justa! Nosso corpo sempre reage a alguma coisa assim mesmo, entrando em crise.

Melhor a guerra no sonho do que ao vivo!

Vâmvú disse...

Pessoal, muito obrigado pelos coments, sempre. Mas só para esclarecer, esse texto é uma mistura de sonho com ficção. Alguns elementos são reais e outros não... (rs)

Ah! Eu não estou tentando parar de fumar, não, apenas diminuir um poco... (rs)


Corso, obrigado pelo coment, sempre muito bom (como teus textos e poemas). Sabe que realmente essa imagem do teto aberto é bem interessante mesmo, suas observações foram ótimas. Abração.

Max, vc tá coberto de razão, deve ser uma guerra justa sim... agora quanto a guerra nos sonhos ou ao vivo... não sei... ao vivo acho que vc tem um pouquinho mais de controle sobre ela... ou não??
:/
Abração

SIMONE GOIS disse...

Rapazes, rapazes, que bom seria se deixassem de fumar, isso mata, bla bla bla... que vocês já sabem, né...

Fábio, que legal seu texto pesadelo ficção, afinal não é assim a arte, copia a realidade! Escrever é um exercício, vale a pena colocar no papel... ou na rede nossas idéias e inspirações.
parabéns
beijos
simone

Vâmvú disse...

Simone, muito obrigado por tua presença aqui... (tirando o bla, bla, bla sobre o cigarro... hahaha)(Tô brincando... sei muito bem o mal que faz fumar...)
Bjs

Valéria disse...

"A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado."
(manoel de barros)
mas sabe... ele também diz , ao final deste poema: "penso renovar o homem usando borboletas"
ele sabe... eu não.
um beijo

Fabrício Romano disse...

Nossa, tem uns textos bem legais por aqui. Vou guardar o link e voltar com mais tempo...

Obrigado pelos comentários, cara..
Abç.

Vâmvú disse...

Val, brigado pelos seus coments sempre tão poéticos. Bjs.

Fabricio, obrigado pela visita, volte sempre. Abração.

Ricardo Valente disse...

Poucos enxergam a carência, por isso, autofagia sempre! Que bom assim! Creia!

Vâmvú disse...

Ricardo, sempre muito bem vindo teus comentários.
Abração

afobório disse...

nossa, tem a alma na ponta dos dedos, sim porque se esse é um pesadelo vou te amaldiçoar, hehehe, para que tenha pesadelos sempre, no entanto acho que o nome disso é talento mesmo.

sorte e luz.

Vâmvú disse...

Nossa, digo eu, Afobório. Muito obrigado por tuas palavras... mas por favor, pesadelos, não mais... hehehehe
Abração